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O autor Michael Ondaatje escreve que cada cena para você tem um padrão maior subjacente que rege os seus cortes. Existe um padrão guiando seu trabalho em “Cold Mountain”? Eu me lembro do Al Pacino dizendo que o que guiava seu desempenho como Michael em “O Poderoso Chefão” era a idéia de um spot de luz imaginário que o perseguia, e ele sempre tentava escapar dele. Por isso eu acredito que não importa em que disciplina — interpretação, edição ou o que quer que seja — essas “metaestratégias” dão a seu trabalho uma profundidade e ressonância adicionais, se você tiver a sorte de as encontrar. E caso o material em si seja capaz de suportá-las, em primeiro lugar. A audiência não precisa esta consciente delas — na verdade é melhor que não esteja. Isso parece paradoxal: por que gastar esforço am algo que não vai ser diretamente percebido? Isso é provavelmente algo como o efeito dos harmônicos na música. Se um violino toca a nota Dó, nós não estamos conscientes da nota em si, mas há um conjunto de harmônicos que vêm junto com a nota, e são esses harmônicos que dão a cada violino seu tom particular. Eles nos permitem distinguir um oboé de um violino, e até mesmo distinguir Stradivarius de um violino qualquer. O roteiro de “O Poderoso Chefão” dava a Al Pacino as linhas de diálogo, mas era a “metaestratégia” — aqueles harmônicos — que dizia a ele exatamente como dizer cada diálogo, e com que linguagem corporal. Uma estratégia com a qual trabalhei em “Cold Mountain” foi a de que Inman tinha sido morto na batalha, e é o seu fantasma — um fantasma que não sabe que está morto — que passa por todas aquelas aventuras ao tentar voltar para casa. É lógico que é contraditório, já que o Inman que nós vemos é um corpo físico que interage com todos que encontra. Mas o “harmônico” daquela idéia paira sobre os cantos de cada cena, informando, de maneira sutil, onde estão os pontos de corte, quais tomadas de reação utilizamos e daí por diante.
O director Anthony Minghella diz que o filme, como a música, é construído sobre a releitura de temas. Em “Cold Mountain,” o tema é a renovação. Como os espectadores vão ver ou ouvir esse tema no filme? Não há a menor dúvida de que esse filme — qualquer filme — é um tipo de música visual: a alternância e desenvolvimento de tomadas individuais sendo o equivalente das frases na música. Certamente, o filme é mais visualmente musical do que o teatro, que depende principalmente da palavra falada. Eu acho que essa é uma das razões pelas quais filme e música funcionam tão bem juntos — e às vezes misteriosamente — um com o outro. Anthony começou como músico durante a adolescência e começo da idade adulta, e eu tenho uma tendência natural para a música por causa do meu envolvimento com som. Por isso “Cold Mountain” pode tender a ser mais “musical” do que alguns outros filmes, nesse sentido, pois Anthony o escreveu e dirigiu, e eu editei o filme e fiz a mixagem final. Especificamente? Há a repetição visual de imagens refletidas: o filme começa e termina com uma imagem vista através da água, e há momentos cruciais da história em que essas metáforas refletidas aparecem. Depois há as alterações temáticas mais amplas e repetições de humor, crueldade, angústia e amor através do filme. Mais do que isso, são os telespectadores que têm que ver e descobrir. Próxima página: O Peso das Imagens |
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